Presidente do Flamengo critica a proibição das bets, aponta riscos para contratos, contratações e esportes olímpicos e defende revisão da medida

Arte: Canal Bruno Baesso
O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, fez um forte alerta sobre as consequências financeiras da proibição das casas de apostas no Brasil. Em entrevista ao MengoCast #66, da Flamengo TV, no dia 28 de setembro, o dirigente afirmou que a mudança atinge diretamente o planejamento financeiro rubro-negro e pode provocar uma perda de aproximadamente R$ 400 milhões em receitas.
A preocupação apresentada por Bap vai muito além do contrato de patrocínio máster. Segundo o presidente, a medida pode atingir a folha salarial do futebol, compromissos já assumidos na contratação de jogadores, futuras movimentações no mercado, esportes olímpicos, futebol feminino, receitas publicitárias e a comercialização de produtos oficiais.
Em um dos momentos de maior repercussão da entrevista, Bap utilizou Lucas Paquetá para dimensionar o problema enfrentado pelo clube: “Como eu vou pagar o Paquetá em janeiro?”
A pergunta faz referência aos compromissos financeiros assumidos pelo Flamengo na contratação do meio-campista e resume o principal argumento apresentado pelo dirigente: o clube realizou seu planejamento considerando receitas provenientes de contratos que eram legais quando foram celebrados.
A declaração não significa, por si só, que o Flamengo esteja atualmente sem recursos para cumprir o compromisso. O exemplo foi utilizado pelo presidente para demonstrar como uma queda repentina e significativa de receitas pode afetar um planejamento elaborado anteriormente.
A discussão decorre da Medida Provisória nº 1.394/2026, publicada pelo Governo Federal em 25 de setembro de 2026, que proibiu a exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa no país, alcançando apostas esportivas e jogos on-line.
Durante a entrevista, Bap afirmou compreender que atividades reguladas possam passar por ajustes, mas questionou uma alteração abrupta depois de empresas, clubes e demais agentes terem estruturado contratos dentro das regras até então existentes. Para o dirigente, o cenário cria insegurança sobre compromissos assumidos para os próximos anos.
O Flamengo trabalha com uma estimativa de impacto próximo de R$ 400 milhões em receitas. A conta não considera somente o patrocínio máster, mas também outras propriedades comerciais ligadas direta ou indiretamente ao setor de apostas.
O contrato de patrocínio com a Betano representa uma parcela relevante dessa exposição. Também entram na avaliação rubro-negra possíveis efeitos sobre placas de publicidade, futebol feminino, esportes olímpicos e outras propriedades comerciais.
Se diversas casas de apostas deixarem simultaneamente o mercado brasileiro, vários clubes precisarão procurar novos patrocinadores ao mesmo tempo. Na avaliação apresentada por Bap, esse excesso de oferta pode reduzir o valor das propriedades comerciais e dificultar a reposição integral das receitas perdidas.
Uma das frases utilizadas por Bap para sintetizar o cenário foi: “Nós vamos deixar de contratar jogadores e contratar advogados.”
A declaração expressa a avaliação de que parte dos recursos que poderiam ser direcionados ao fortalecimento esportivo poderá ser consumida por discussões jurídicas envolvendo contratos e pelos efeitos da nova legislação. Caso a perda de receitas se confirme, o Flamengo poderá precisar reavaliar investimentos previstos para 2027.
Bap ressaltou que os possíveis efeitos não terminam no futebol masculino profissional. O Flamengo mantém uma ampla estrutura esportiva, com modalidades olímpicas e futebol feminino, que dependem de diferentes fontes de financiamento.
Na avaliação do presidente, uma redução brusca das receitas comerciais pode exigir ajustes nessas áreas. O dirigente também chamou atenção para o impacto potencial sobre federações, competições estaduais e outros clubes que possuem contratos com empresas do setor de apostas.
Outro ponto abordado é o estoque de produtos já fabricados com marcas de empresas de apostas. Com novas restrições à publicidade, camisas e outros materiais produzidos anteriormente podem gerar dificuldades comerciais e financeiras.
Além do valor dos produtos em estoque, o clube também considera o impacto sobre royalties que seriam obtidos com as vendas, especialmente em um período próximo ao último trimestre do ano.
O presidente também demonstrou resistência à possibilidade de uma resposta baseada somente na abertura de linhas de crédito aos clubes. Na visão apresentada por Bap, empréstimo não substitui receita.
O argumento do dirigente é que o Flamengo assumiu despesas e contratos considerando receitas projetadas. Compensar a perda de faturamento por meio de endividamento, portanto, alteraria a lógica financeira que sustentou o planejamento do clube.
Durante o MengoCast, Bap defendeu que a situação seja revista institucionalmente. Ele afirmou esperar que o tema seja reavaliado pelo Congresso Nacional ou pelo Supremo Tribunal Federal.
O presidente procurou diferenciar sua crítica de uma defesa irrestrita das apostas. Segundo a argumentação apresentada na entrevista, a preocupação central envolve segurança jurídica, previsibilidade e a necessidade de uma transição capaz de permitir a reorganização dos contratos e dos planejamentos já existentes.
Do outro lado da discussão, o Governo Federal fundamenta a proibição em razões de interesse público, incluindo endividamento das famílias e efeitos associados ao jogo problemático. A posição oficial destaca impactos financeiros, familiares, pessoais e profissionais relacionados ao uso nocivo das apostas.
Assim, enquanto clubes e entidades esportivas questionam principalmente a velocidade da mudança e seus efeitos econômicos, o Governo Federal sustenta a medida com argumentos sociais, econômicos e de saúde pública.
A entrevista de Bap deixa claro que o Flamengo considera a proibição das bets um fator relevante de risco para seu planejamento financeiro de 2027. O clube assumiu compromissos de longo prazo e estruturou receitas comerciais que agora podem ser afetadas pela mudança regulatória.
Os efeitos concretos dependerão da tramitação da medida, de eventuais decisões judiciais e da capacidade do Flamengo e dos demais clubes de substituir receitas provenientes do setor de apostas.
A pergunta feita pelo próprio presidente durante a entrevista resume a preocupação apresentada: “Como eu vou pagar o Paquetá em janeiro?” Mais do que uma referência a um jogador, a frase foi usada para questionar como preservar compromissos assumidos com base em contratos legais diante de uma possível redução repentina das receitas projetadas.