CBF reduzirá gradualmente o número de estrangeiros por partida até 2030 sob o argumento de ampliar espaço para jovens e fortalecer o futebol brasileiro; Rubro-Negro, com dez jogadores de fora do país, votou contra a mudança.

Arte: Site Bruno Baesso
A decisão dos clubes das Séries A e B de reduzir gradualmente o limite de jogadores estrangeiros relacionados por partida muda a lógica de montagem dos elencos no futebol brasileiro e atinge diretamente o Flamengo. O Rubro-Negro reúne dez estrangeiros no elenco profissional e, pela regra atual, já precisa administrar o máximo de nove atletas de fora do país por jogo do Campeonato Brasileiro.
A proposta apresentada pela CBF prevê oito estrangeiros por partida em 2027, sete em 2028, seis em 2029 e cinco em 2030. A redução será gradual para diminuir o impacto sobre contratos já assinados. Flamengo e Bahia se posicionaram contra a mudança na reunião; relatos posteriores também registraram voto contrário do Londrina.
A discussão, porém, vai muito além do Flamengo. A CBF sustenta que o crescimento da presença de estrangeiros coincidiu com a perda de espaço dos jogadores brasileiros mais jovens e que a nova política pode fortalecer a formação nacional no médio e longo prazo. Ao mesmo tempo, dirigentes rubro-negros questionam se restringir estrangeiros sem flexibilizar o mercado interno ataca a origem do problema.
A CBF apresentou aos clubes um estudo da CBF Academy segundo o qual os brasileiros com menos de 23 anos perderam espaço de forma acentuada no Campeonato Brasileiro. A entidade relaciona esse movimento ao aumento da participação de estrangeiros mais experientes e defende que menos vagas para atletas de fora, somadas a uma reformulação das listas de inscritos, podem abrir espaço para a formação nacional.
A partir de 2027, o Brasileirão continuará permitindo até 50 inscritos, mas a CBF pretende separar as vagas entre uma lista principal e outra destinada aos sub-23. O modelo começa com 30 atletas acima de 23 anos e 20 sub-23 em 2027 e evolui até uma divisão de 25 por 25 em 2030.
Outro dado usado pela entidade é a idade média da Série A, de 28,5 anos, superior às médias citadas pela CBF para ligas como Espanha, França e Itália. Na leitura da confederação, menos minutos para jovens podem afetar não apenas a Seleção Brasileira, mas também a capacidade dos clubes de formar, desenvolver e negociar novos talentos.
“A gente tem um diagnóstico de que os jogadores sub-23 brasileiros têm jogado cada vez menos.”
Helder Melillo, diretor executivo da CBF
Melillo também afirmou que a entidade reconhece a importância dos estrangeiros, mas entende que a redução, combinada com mudanças nas inscrições, pode ampliar as oportunidades aos sub-23 e elevar a qualidade técnica dos times no médio e longo prazo. A proposta teve origem em manifestação do Movimento dos Clubes Formadores do Futebol Brasileiro.
O Flamengo não concentrou sua oposição na ideia de revelar mais jogadores brasileiros, mas na forma adotada para alcançar esse objetivo. Durante a reunião, o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, sustentou que o próprio regulamento do Brasileiro dificulta contratações dentro do país ao impedir transferências entre clubes da Série A depois que o jogador atinge o limite de partidas previsto na competição.
Na avaliação apresentada pelo dirigente, quando as opções no mercado nacional ficam reduzidas, os clubes acabam recorrendo ao exterior para reforçar seus elencos. Bap pediu que a restrição de transferências internas fosse debatida junto com a redução de estrangeiros, mas a CBF informou que o assunto não estava na pauta.
“de cima para baixo”
Expressão atribuída por reportagem do ge a Bap ao criticar a forma de apresentação das medidas
O contraponto do Flamengo coloca uma pergunta central no debate: reduzir estrangeiros por si só é suficiente para fortalecer o jogador brasileiro ou a CBF também precisa rever barreiras que limitam a circulação de atletas nacionais entre os clubes?

Arte: Site Bruno Baesso | Redução gradual aprovada para o Campeonato Brasileiro
Em 2026, cada clube pode relacionar até nove estrangeiros por partida. A redução começa em 2027, com oito, e termina em 2030, quando serão permitidos apenas cinco. A regra brasileira é simples: considera a nacionalidade do atleta e estabelece um teto na súmula do jogo.
A comparação internacional exige cuidado porque as maiores ligas do mundo não usam um único conceito de “estrangeiro”. Algumas protegem atletas formados localmente, independentemente da nacionalidade; outras limitam extracomunitários; e há campeonatos que controlam principalmente a entrada de jogadores vindos de fora de determinados blocos econômicos.
Campeonato | Modelo de controle |
Brasil – Série A | 2026: 9 por jogo; 2027: 8; 2028: 7; 2029: 6; 2030: 5. |
Inglaterra – Premier League | Lista principal de até 25 atletas com no máximo 17 não-homegrown; os demais precisam cumprir o critério de formação local. Sub-21 têm tratamento próprio. |
Espanha – LaLiga | Até 3 jogadores não comunitários inscritos no elenco principal; comunitários e atletas abrangidos por regras específicas não entram nessa cota. |
França – Ligue 1 | Em regra, até 4 jogadores fora da UE/EEE e de países cobertos por determinados acordos com a União Europeia. |
Alemanha – Bundesliga | Não há um teto geral simples de estrangeiros por jogo; os clubes precisam manter ao menos 12 jogadores licenciados com cidadania alemã sob contrato e elegíveis. |
Itália – Serie A | O foco é o registro de extracomunitários vindos do exterior; as cotas variam conforme a composição prévia do elenco e não equivalem a um teto simples por partida. |

Arte: Site Bruno Baesso | As principais ligas utilizam modelos diferentes de proteção à formação local
Na Premier League, por exemplo, a regra não separa simplesmente ingleses e estrangeiros. O conceito de homegrown considera onde o jogador foi formado. Assim, um estrangeiro que passou o período exigido em clubes ingleses pode cumprir o critério, enquanto a nacionalidade, isoladamente, não resolve a questão.
Na Espanha e na França, o foco principal recai sobre jogadores não comunitários ou não pertencentes a grupos de países abrangidos por acordos específicos. A Alemanha protege a presença de atletas alemães por meio de requisito de elenco, enquanto a Itália concentra boa parte do controle sobre novas inscrições de extracomunitários vindos do exterior.
O Brasil seguirá um caminho diferente: haverá um número máximo direto de estrangeiros na súmula. Isso torna o modelo brasileiro mais fácil de compreender, mas também menos flexível do que sistemas baseados em formação local ou em status comunitário.
O Flamengo conta atualmente com Agustín Rossi (Argentina), Guillermo Varela (Uruguai), Erick Pulgar (Chile), Nicolás De La Cruz (Uruguai), Giorgian De Arrascaeta (Uruguai), Saúl Ñíguez (Espanha), Jorge Carrascal (Colômbia), Gonzalo Plata (Equador), Anthony Valencia (Equador) e Joaquín Freitas (Argentina).
Jorginho, embora tenha cidadania italiana e tenha defendido a seleção da Itália, nasceu no Brasil e, portanto, não entra na contagem de estrangeiros para as competições nacionais.
Se os dez permanecessem no elenco sem qualquer naturalização, o Flamengo teria de deixar dois estrangeiros fora da relação em 2027, três em 2028, quatro em 2029 e cinco em 2030. Naturalmente, o grupo sofrerá alterações até lá, mas a projeção mostra por que o tema da cidadania brasileira ganhou valor esportivo.
A naturalização é uma decisão pessoal do jogador e depende do cumprimento dos requisitos legais brasileiros. O clube não pode tratar o processo como simples expediente administrativo para abrir vagas. Ainda assim, se um atleta estrangeiro obtiver a nacionalidade brasileira, deixa de consumir uma das vagas destinadas a estrangeiros nas competições da CBF.
A regra geral da naturalização ordinária exige capacidade civil, residência por prazo indeterminado no Brasil pelo período mínimo aplicável, capacidade de comunicação em português e inexistência de condenação penal, ou reabilitação. O prazo-base é de quatro anos.
Esse período pode ser reduzido para um ano, entre outras hipóteses, quando o requerente tem filho brasileiro ou cônjuge/companheiro brasileiro, e para dois anos quando tenha prestado ou possa prestar serviço relevante ao país ou seja recomendado por sua capacidade profissional, científica ou artística. Nesses últimos casos, a redução depende de avaliação do Departamento de Migrações da Secretaria Nacional de Justiça.
Há um detalhe decisivo: o Ministério da Justiça considera o período a partir da residência por prazo indeterminado registrada perante a Polícia Federal. Por isso, a data de chegada ao clube é apenas uma referência jornalística e não substitui a análise do histórico migratório individual.

Arte: Site Bruno Baesso | Situação estimada a partir do histórico público dos atletas; a análise jurídica é individual
Giorgian De Arrascaeta chegou ao futebol brasileiro em 2015, para defender o Cruzeiro, e está no país há mais de uma década. Considerando apenas o histórico público de permanência, supera com folga o prazo ordinário de quatro anos. A confirmação jurídica depende, contudo, da situação migratória registrada perante a Polícia Federal e dos demais requisitos.
Guillermo Varela está no Flamengo desde 2022 e, em entrevista ao próprio clube, revelou que sua filha nasceu no Rio de Janeiro. A legislação brasileira prevê redução do prazo mínimo de residência para um ano quando o requerente tem filho brasileiro, desde que os demais requisitos estejam preenchidos.
Erick Pulgar também chegou ao Flamengo em 2022. Pelo tempo público de permanência no país, está entre os nomes que podem estar próximos do prazo ordinário, embora somente a documentação migratória permita afirmar se o requisito de residência por prazo indeterminado foi integralmente cumprido.
Agustín Rossi está no Brasil desde 2023 e deu entrada no processo para obtenção da cidadania brasileira, com apoio do Flamengo. Como ainda não completou quatro anos no país, a possibilidade de redução por capacidade profissional passou a ser relevante em seu caso. Essa redução, porém, não é automática.
Nicolás De La Cruz chegou ao Flamengo no início de 2024 e Gonzalo Plata, no segundo semestre daquele ano. Considerando a permanência pública no país, ambos já superaram dois anos em 2026. Isso pode permitir a discussão de redução do prazo por capacidade profissional, mas depende da avaliação oficial e da comprovação da residência exigida.
Saúl Ñíguez e Jorge Carrascal chegaram ao Flamengo em 2025. Anthony Valencia e Joaquín Freitas foram contratados em 2026. Pelas informações públicas disponíveis e sem considerar eventual hipótese familiar específica não divulgada, ainda estão mais distantes do prazo ordinário de quatro anos e, no caso dos recém-chegados, também do prazo reduzido de dois anos.

Arte: Site Bruno Baesso | A dupla nacionalidade depende das regras do país de origem
Para os estrangeiros do atual elenco do Flamengo, a aquisição da nacionalidade brasileira não significa, em regra, perda automática da nacionalidade de origem. As legislações de Uruguai, Argentina, Chile, Equador e Colômbia admitem a manutenção da nacionalidade em situações como essas, embora cada país tenha regras próprias de exercício da dupla nacionalidade.
A Constituição uruguaia estabelece que a nacionalidade não se perde nem pela naturalização em outro país. Assim, a eventual aquisição da cidadania brasileira não faria os três deixarem automaticamente de ser uruguaios.
A legislação argentina preserva a nacionalidade dos argentinos que também obtenham outra cidadania. Rossi e Freitas poderiam, portanto, ser brasileiros sem deixar automaticamente de ser argentinos.
O Chile também admite a manutenção da nacionalidade de origem quando um cidadão se naturaliza em outro país, salvo hipóteses específicas de renúncia voluntária. Em tese, Pulgar poderia acumular as duas nacionalidades.
A Constituição equatoriana prevê que a nacionalidade do país não é perdida pela aquisição de outra nacionalidade. Plata e Valencia, portanto, poderiam manter o vínculo jurídico com o Equador.
A Colômbia permite a dupla nacionalidade. Uma consequência prática é que, dentro do território colombiano, o cidadão com duas nacionalidades é tratado pelas autoridades como colombiano e deve observar as regras aplicáveis a nacionais.
A legislação espanhola é mais complexa, mas possui tratamento específico para aquisição de nacionalidade de países ibero-americanos. Para espanhóis de origem, a aquisição da nacionalidade brasileira não implica, automaticamente, perda da espanhola nas condições previstas pelo Código Civil e pelas orientações consulares.
Há uma diferença importante entre nacionalidade civil e elegibilidade esportiva. Um jogador pode tornar-se brasileiro, deixar de ocupar vaga de estrangeiro no Brasileirão e ainda assim não estar autorizado a defender a Seleção Brasileira.
As regras da FIFA exigem vínculo efetivo com o país e impõem condições relacionadas a nascimento, ascendência, residência e participação anterior por outra seleção. Para um atleta que adquira nova nacionalidade sem ter nascido no país e sem vínculo familiar elegível, o período de residência exigido pode ser determinante.
Rossi é o exemplo mais evidente para o Flamengo: a obtenção da cidadania teria efeito imediato sobre a cota de estrangeiros da CBF, mas uma eventual possibilidade de defender o Brasil dependeria de requisitos esportivos distintos e de sua situação perante as regras da FIFA.
Se jogadores com longa permanência no Brasil, como Arrascaeta, Varela e Pulgar, além de Rossi, concluíssem processos de naturalização, o Flamengo reduziria significativamente a quantidade de atletas contabilizados como estrangeiros. Em um cenário hipotético com quatro naturalizações e nenhuma outra mudança, o atual grupo de dez cairia para seis para efeito do regulamento nacional – número compatível com o limite de 2029 e apenas uma vaga acima do teto de 2030.
Ainda assim, a estratégia do clube terá de ser mais ampla. O Flamengo precisará combinar naturalizações voluntárias, planejamento de saídas e contratações, maior aproveitamento de brasileiros e atenção às mudanças anuais do regulamento.
Os dados apresentados pela CBF apontam para uma queda real na participação de jovens brasileiros e ajudam a explicar o argumento do fortalecimento da formação nacional. Por outro lado, a comparação com Inglaterra, Espanha, França, Alemanha e Itália mostra que grandes ligas utilizam mecanismos distintos e, em muitos casos, evitam um teto único baseado apenas na nacionalidade.
O desafio para o futebol brasileiro será equilibrar quatro interesses: preservar a formação de atletas nacionais, manter o nível técnico e a atratividade do campeonato, permitir aos clubes acesso a um mercado competitivo e não comprometer contratos e investimentos já realizados.
Para o Flamengo, que internacionalizou fortemente seu elenco nos últimos anos, a mudança deixa de ser um tema abstrato. A partir de 2027, cada vaga estrangeira passará a ter peso crescente. E a cidadania brasileira de jogadores que criaram raízes no país pode transformar uma escolha pessoal em uma variável importante de planejamento esportivo.