Atual gestão demora a contratar, concentra esforços em negociações milionárias e demonstra pouca criatividade para encontrar alternativas no mercado

Por Bruno Baesso
O Flamengo comandado por Luiz Eduardo Baptista, o BAP, e José Boto começa a reproduzir justamente algumas das práticas que o atual presidente mais criticava na gestão anterior: demora para contratar, negociações que se transformam em novelas e preferência quase exclusiva por jogadores de altíssimo custo.
A promessa era de profissionalização, autonomia para o departamento de futebol, utilização mais eficiente do setor de scout e decisões tomadas por profissionais remunerados, sem a interferência do chamado “Conselhinho”. José Boto seria o responsável pelas decisões do futebol e teria liberdade para conduzir o planejamento ao lado da comissão técnica.
Na prática, entretanto, o modelo ainda não apresentou a criatividade que se esperava.
O Flamengo continua demorando para fechar suas contratações e, quando finalmente avança no mercado, normalmente concentra os esforços em jogadores de valores elevadíssimos. Desde o início da gestão BAP, o clube já contabilizou mais de R$ 900 milhões em operações envolvendo reforços, considerando direitos econômicos, luvas e comissões.
O problema não está simplesmente em gastar. O Flamengo possui uma das maiores receitas do futebol sul-americano e precisa contratar jogadores capazes de elevar o nível de um elenco que disputa todas as competições para vencer.
A questão é outra: onde estão as oportunidades de mercado, as apostas de baixo risco e os jogadores encontrados pelo trabalho de scout?
A gestão anterior cometeu erros, demorou em diversas negociações e também pagou caro por vários jogadores. Isso não pode ser ignorado. Foram mais de R$ 1,3 bilhão investidos em reforços durante os seis anos de Rodolfo Landim.
No entanto, aquele departamento de futebol também utilizou modelos de negócio que diminuíam os riscos para o Flamengo.
Gabigol chegou inicialmente por empréstimo da Inter de Milão em 2019. Depois de uma temporada extraordinária, com participação decisiva nas conquistas do Campeonato Brasileiro e da Libertadores, o Flamengo negociou sua compra definitiva.
É importante fazer uma correção factual: diferentemente de Pedro, o primeiro empréstimo de Gabigol não possuía uma opção de compra já definida nos mesmos moldes. Mesmo assim, o Flamengo teve a oportunidade de avaliar o jogador durante uma temporada antes de realizar o grande investimento.
Pedro, por sua vez, chegou em 2020 emprestado pela Fiorentina, com o direito de compra previsto no acordo. Após o atacante demonstrar dentro de campo que justificava o investimento, o clube exerceu a opção e adquiriu seus direitos econômicos.
Esses dois casos mostram que existem maneiras diferentes de buscar jogadores de alto nível sem realizar imediatamente uma compra milionária.
Empréstimos com opção de compra, metas esportivas, bônus por desempenho e valores previamente fixados são instrumentos importantes. Eles permitem avaliar a adaptação esportiva, física e pessoal do jogador antes de comprometer uma parcela significativa do orçamento.
Até agora, a gestão BAP e Boto não transformou esse tipo de operação em uma ferramenta relevante de mercado.
Pablo Marí talvez seja o melhor exemplo do que um departamento de scout deve procurar.
O zagueiro espanhol chegou ao Flamengo em 2019 por pouco mais de R$ 5 milhões. Não era uma estrela, não possuía grande repercussão internacional e também não provocou uma corrida de torcedores ao aeroporto.
Dentro de campo, porém, encaixou-se perfeitamente no sistema de Jorge Jesus e tornou-se titular do time campeão brasileiro e da Libertadores. Poucos meses depois, foi negociado com o Arsenal por um valor várias vezes superior ao investimento realizado pelo Flamengo.
Pablo Marí entregou retorno técnico e financeiro.
Esse deveria ser um dos principais objetivos de um departamento profissional de futebol: encontrar jogadores antes que eles se tornem óbvios e caros.
Qualquer dirigente com dinheiro disponível consegue disputar atletas conhecidos, convocados para seleções e avaliados em 20 milhões, 30 milhões ou 40 milhões de euros. A verdadeira diferença de um bom scout aparece quando o clube encontra qualidade onde os concorrentes ainda não estão olhando.
Juninho foi a contratação que mais se aproximou desse perfil na gestão atual. O atacante veio do Qarabag, do Azerbaijão, sem o peso de uma grande estrela e com a expectativa de que pudesse evoluir no Flamengo.
Ainda assim, nem mesmo essa operação pode ser considerada exatamente barata. Foi contratado por € 5 milhões. Depois de uma única temporada, o jogador foi negociado com o Pumas, do México, pelo mesmo valor que foi comprado.
Ou seja: ele saiu pelo mesmo valor que foi comprado, mas faltou paciência.
É legítimo concluir que Juninho não correspondeu ao esperado. Nem toda aposta dará certo. O problema é abandonar rapidamente esse tipo de estratégia e voltar a concentrar praticamente todo o mercado em jogadores caríssimos.
Scout não é garantia de acerto. É um trabalho de probabilidade, acompanhamento e construção de elenco. Para funcionar, exige convicção e alguma paciência.
O episódio envolvendo Mikey Johnston também expôs uma contradição importante.
O atacante havia sido monitorado pelo departamento comandado por José Boto, aceitado a proposta do Flamengo e já possuía passagem emitida para o Brasil. O negócio, avaliado em aproximadamente € 6 milhões, foi interrompido por BAP após a repercussão negativa entre torcedores, dirigentes, conselheiros e pessoas influentes no clube.
A diretoria pode desistir de uma contratação. Faz parte do processo. Informações médicas, financeiras ou esportivas podem justificar uma mudança de decisão.
O que não deveria acontecer é o futebol profissional do Flamengo abandonar uma negociação apenas porque o nome não agradou inicialmente às redes sociais.
A torcida deve cobrar, opinar e fiscalizar. Entretanto, não possui acesso aos relatórios técnicos, aos dados físicos, às análises de desempenho, às entrevistas com o atleta ou aos detalhes financeiros do contrato.
Se o departamento de futebol realmente acreditava em Johnston, deveria sustentar sua escolha. Caso não tivesse convicção suficiente para defendê-la, o negócio jamais deveria ter avançado ao ponto de o jogador comprar passagem para o Rio de Janeiro.
Um clube profissional não pode contratar por aclamação nem desistir por enquete.
A negociação com Thiago Almada é o retrato mais recente do problema.
O argentino é um jogador de qualidade, conhece o futebol brasileiro e possui características que podem acrescentar criatividade ao meio-campo do Flamengo. O erro não está em tentar contratá-lo.
O erro está em permitir que praticamente todo o planejamento da janela dependa da decisão de um único jogador.
Em 22 de julho, havia expectativa de que o acordo pudesse ser concluído por um valor entre 20 milhões e 28 milhões de euros. O Flamengo já possuía entendimento com o Atlético de Madrid e aguardava o desfecho das conversas com o atleta e seus representantes.
As semanas passaram, o River Plate entrou na disputa e a negociação permaneceu sem conclusão.
José Boto afirmou que o Flamengo não participará de leilão e que manterá as condições anteriormente acertadas. Também destacou que uma operação superior a 20 milhões de euros está entre as maiores da história do futebol brasileiro.
A postura de não aumentar indefinidamente a proposta está correta. O problema é que ela deveria estar acompanhada de alternativas reais, previamente analisadas e da mesma posição.
Sem alternativas, o comprador perde força.
A comparação com a compra de um automóvel ajuda a ilustrar a situação, embora tenha limitações, porque jogadores são ativos únicos e não produtos idênticos. Ainda assim, como na compra de um carro, o princípio comercial permanece: quem possui dinheiro deve definir quanto considera justo pagar e estar preparado para abandonar a negociação se o valor não fizer sentido.
Quando o vendedor percebe que o comprador não possui outro caminho, passa a controlar o tempo e as condições.
Não é correto afirmar, como fato, que Almada esteja deliberadamente fazendo a diretoria do Flamengo de boba. Mas é possível afirmar que a falta de alternativas permitiu que o Flamengo parecesse refém da decisão do jogador.
A resposta do Flamengo à demora de Almada foi avançar pela contratação de Luiz Henrique.
O atacante do Zenit é um grande jogador, foi campeão da Libertadores e do Brasileirão pelo Botafogo em 2024 e possui capacidade para melhorar o setor ofensivo rubro-negro.
Mas Luiz Henrique é essencialmente um jogador de lado de campo. Thiago Almada é um meio-campista com características de criação e articulação.
Portanto, um não deveria ser tratado simplesmente como plano alternativo ao outro.
Segundo informações divulgadas nesta quarta-feira, 5 de agosto, o Flamengo avançou por Luiz Henrique com uma proposta de 30 milhões de euros fixos, mais 5 milhões de euros em bônus. Caso a operação seja concluída nesses valores, será a segunda maior contratação da história do clube, e o jogador poderá receber o maior salário do elenco.
A negociação reforça novamente a impressão de que José Boto trabalha prioritariamente na prateleira mais cara do mercado.
Se Almada era o plano A para o meio-campo, o plano B deveria ser outro jogador capaz de exercer funções semelhantes. Luiz Henrique pode ser desejado para outra necessidade do elenco, mas não resolve automaticamente a ausência do meia argentino.
Contratar um ponta porque não foi possível fechar com um armador significa mudar o planejamento durante a janela, e não executar uma alternativa previamente definida.
O Flamengo possui até as 18h de sexta-feira, 7 de agosto de 2026, para inscrever novos jogadores nas oitavas de final da Libertadores.
Sem a regularização de reforços até esse horário, Leonardo Jardim terá de enfrentar o Cruzeiro com o elenco que já possui. Novas mudanças só poderiam acontecer antes das quartas de final, caso o Flamengo consiga avançar.
A janela brasileira continuará aberta até 11 de setembro, conforme o calendário oficial da CBF. Portanto, o clube ainda terá tempo para contratar jogadores para o restante da temporada.
Mas futebol não é apenas uma questão de encontrar um jogador antes do fechamento administrativo da janela.
Existe tempo de treinamento, adaptação, preparação física e conhecimento dos companheiros. Além disso, uma eventual eliminação para o Cruzeiro não poderá ser corrigida com uma contratação realizada em setembro.
Esperar até o último momento pode custar mais caro do que pagar alguns milhões adicionais em uma transferência.
O contraponto precisa ser registrado: o Flamengo também arrecadou quase R$ 600 milhões em vendas durante a gestão BAP, e José Boto afirma que não pretende colocar a saúde financeira do clube em risco para participar de leilões.
Essa responsabilidade é necessária.
Porém, responsabilidade financeira não significa apenas recusar uma proposta maior. Também significa diversificar alvos, antecipar necessidades, negociar modelos menos arriscados e evitar que o clube chegue aos últimos dias dependendo de uma única resposta.
O Flamengo não precisa desistir de contratar estrelas. Almada e Luiz Henrique possuem qualidade para vestir a camisa rubro-negra.
Mas um clube estruturado não pode viver apenas de estrelas caras.
É necessário encontrar o próximo Pablo Marí, utilizar empréstimos com opção de compra, estabelecer alternativas por posição e ter convicção suficiente para defender as escolhas de seu departamento profissional.
BAP e Boto prometeram um Flamengo diferente da gestão anterior. Até agora, no mercado de transferências, repetem justamente alguns dos comportamentos que diziam querer eliminar.
Demoram, concentram esforços em poucas negociações e, quando buscam alternativas, continuam olhando para jogadores que custam dezenas de milhões de euros.
O Flamengo possui dinheiro para comprar.
O que ainda precisa demonstrar é capacidade para comprar bem.
Porque nós somos o Flamengo!
SRN 👊🏻❤️🖤